Dizer que “ultraprocessados fazem mal” soa simples, quase automático. Quando o olhar é científico, porém, essa frase carrega uma simplificação importante: os desfechos de saúde associados aos ultraprocessados não têm todos o mesmo peso de evidência. Não basta identificar uma associação. É preciso compreender o quão sólida ela é.
Nos últimos anos, revisões sistemáticas e análises de alto nível passaram a classificar esses desfechos segundo critérios mais rigorosos, considerando consistência dos resultados, magnitude do efeito, risco de viés e presença de relação dose–resposta. Esse refinamento muda o debate, deslocando a discussão do campo da opinião para o da hierarquia das evidências.
Este artigo se propõe exatamente a isso: examinar quais desfechos associados ao consumo de alimentos ultraprocessados contam com evidência mais robusta, quais são apenas sugestivos e quais ainda permanecem frágeis ou inconsistentes, com base nas sínteses científicas mais abrangentes disponíveis.
O que significa força da evidência em nutrição?
Antes de avançar para os desfechos, é importante compreender como a evidência costuma ser classificada. Revisões do tipo umbrella review, que reúnem e reavaliam múltiplas meta-análises, utilizam critérios pré-definidos para graduar a credibilidade dos achados.
De forma simplificada, os níveis mais frequentes incluem:
- Evidência convincente (classe I): associação consistente, estatisticamente robusta, geralmente acompanhada de relação dose–resposta e baixo risco de vieses.
- Evidência altamente sugestiva (classe II): associação consistente, mas com maior heterogeneidade ou limitações metodológicas.
- Evidência sugestiva ou fraca (classes III–IV): sinais de associação, porém instáveis.
- Ausência de evidência consistente (classe V): resultados inconsistentes ou nulos.
Esse tipo de abordagem ajuda a separar desfechos realmente sólidos daqueles que ainda exigem leitura cuidadosa e cautela interpretativa (LANE et al., 2024).

Desfechos com evidência mais forte
Mortalidade cardiovascular
Entre os desfechos avaliados, a mortalidade por doenças cardiovasculares ocupa posição de destaque. Meta-análises reavaliadas em revisões amplas indicam que maior consumo de ultraprocessados se associa a risco significativamente mais alto de morte por causas cardiovasculares, com resultados consistentes em diferentes coortes (LANE et al., 2024).
Mesmo com a qualidade metodológica global classificada como baixa, algo comum em estudos observacionais, a direção do efeito se repete e a magnitude não é desprezível, sustentando a classificação de evidência convincente.
Diabetes tipo 2, especialmente em análises dose–resposta
Outro desfecho com grau elevado de robustez é o risco de diabetes tipo 2. Estudos que analisam aumentos graduais no consumo de ultraprocessados registram uma relação dose–resposta clara: quanto maior a participação desses alimentos na dieta, maior o risco de desenvolver a doença (LANE et al., 2024).
Na prática, esse padrão é relevante, pois a presença de dose–resposta é um dos critérios que fortalecem inferências causais em epidemiologia nutricional.
Desfechos de saúde mental: ansiedade e transtornos mentais comuns
Achados recentes também chamaram atenção para a força da associação entre ultraprocessados e desfechos de saúde mental, especialmente ansiedade e transtornos mentais comuns analisados em conjunto.
Para esses desfechos, a evidência foi classificada como convincente, com associações observadas de forma consistente em diferentes populações (LANE et al., 2024). Embora os mecanismos ainda estejam em debate, a repetição dos resultados confere peso epidemiológico relevante.
Desfechos com evidência altamente sugestiva
Mortalidade por todas as causas
A associação entre alto consumo de ultraprocessados e mortalidade por todas as causas aparece de forma consistente, mas não atinge o nível máximo de evidência. Ela é classificada como altamente sugestiva, sobretudo devido à heterogeneidade entre estudos e à possibilidade de confundimento residual, mesmo após ajustes extensos (LANE et al., 2024).
Ainda assim, o padrão geral é claro: populações que consomem mais ultraprocessados tendem a apresentar maior risco de morte precoce.
Doença cardiovascular incidente e doença coronariana
Análises prospectivas de grandes coortes indicam que dietas com maior proporção de ultraprocessados se associam a maior incidência de doença cardiovascular e, em especial, de doença coronariana (MENDOZA et al., 2024).
Nesse caso, a evidência é considerada moderada a alta. A magnitude do risco, contudo, é menor do que a observada para mortalidade cardiovascular, o que justifica a classificação inferior em termos de força.
Depressão e desfechos relacionados ao sono
A relação com depressão e distúrbios do sono aparece de maneira relativamente consistente, mas com maior variabilidade entre estudos. Por essa razão, esses desfechos permanecem na categoria de evidência altamente sugestiva, e não definitiva (LANE et al., 2024).
Desfechos com evidência fraca ou inconsistente
Obesidade
Apesar de muito presente no discurso público, a relação entre ultraprocessados e obesidade se mostra mais frágil quando analisada sob critérios rigorosos. Muitas associações são transversais, o que limita inferências causais, e ajustes para a qualidade global da dieta frequentemente atenuam os resultados (LANE et al., 2024).
Isso não significa ausência de risco, mas sim que o peso científico é menor do que aquele observado para diabetes ou mortalidade.
Câncer e doenças respiratórias
Para diferentes tipos de câncer e desfechos respiratórios, a evidência varia de sugestiva a inexistente, dependendo do subtipo analisado. Em muitos casos, os resultados são inconsistentes ou baseados em número reduzido de estudos, o que impede conclusões firmes (LANE et al., 2024).
Ultraprocessados não são um bloco homogêneo
Análises recentes ressaltam que nem todos os ultraprocessados se comportam da mesma forma. Alguns subgrupos, como bebidas adoçadas e carnes processadas, concentram associações mais desfavoráveis. Outros produtos ultraprocessados específicos não apresentam, até o momento, associações negativas claras (MENDOZA et al., 2024; VADIVELLOO et al., 2025).
Esse cenário reforça a necessidade de evitar generalizações simplistas e avançar para leituras mais refinadas do conceito.
Considerações
A frase “ultraprocessados fazem mal” não é falsa, mas é incompleta. Quando os dados são analisados com rigor, torna-se evidente que:
- Alguns desfechos, como mortalidade cardiovascular, diabetes tipo 2 e ansiedade, contam com evidência mais forte.
- Outros, como mortalidade geral e doença cardiovascular incidente, apresentam evidência altamente sugestiva, mas não definitiva.
- Há desfechos amplamente citados no debate público cuja evidência ainda é fraca ou inconsistente.

Esse tipo de leitura não enfraquece a ciência da nutrição. Pelo contrário, ela a fortalece, ao substituir slogans por hierarquia de evidências, nuance e responsabilidade intelectual.
Se queremos recomendações mais honestas e eficazes, precisamos aprender a perguntar não apenas “isso faz mal?”, mas “quão forte é a evidência de que isso faz mal e para quem?”
Referências
- LANE, M. M. et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. BMJ, 2024.
- MENDOZA, K. et al. Ultra-processed foods and cardiovascular disease: analysis of three large prospective cohorts and meta-analysis. The Lancet Regional Health – Americas, 2024.
- VADIVELLOO, M. K. et al. Ultraprocessed foods and their association with cardiometabolic health: evidence, gaps, and opportunities. Circulation, 2025.